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Descansa, Bernardo

19 de março de 2019


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Foi uma semana intensa na cobertura do julgamento dos acusados de matar o menino Bernardo Boldrini, em abril de 2014. Quase cinco anos após o crime foram cinco dias de júri. Foram dias difíceis. De um aprendizado ímpar pela importância do caso e necessidade de assimilar muitos detalhes e passar isso para a comunidade através de notícias e também pela convivência com colegas da imprensa de todo o Estado. Foram dias difíceis porque a todo o momento lembranças vinham à cabeça e junto traziam à tona toda a dor que Bernardo viveu. Em alguns momentos, foi impossível segurar as lágrimas.

Ele sofreu pela negligência de quem deveria amar e proteger. Foram dias difíceis também por ter que ficar tão perto de pessoas tão maldosas, capazes de ouvir gritos de socorro de uma criança e não esboçar nenhuma reação. É difícil crer na maldade que um ser humano é capaz de cometer por ganância. Se é que são humanos. Pessoas dissimuladas, que riam enquanto a polícia e uma comunidade inteira faziam buscas. Uma pessoa que mata uma criança abre uma cova, tira suas vestes, o enrola em um saco plástico, despeja soda e o enterra e por fim dissimula ao ponto de dizer “Deus ajude a encontrar”, essa criatura não é humana. Alguém que vai ao seu julgamento, onde responde pela morte do próprio filho, com uma camiseta escrita: “Pai, sigo seus passos” É muito revoltante. É uma afronta. Faz sentido as acusações do Ministério Público: – psicopata vem ao júri com a camiseta do filho.

Depois de muitos pedidos de ajuda em vão, já era noite de sexta-feira, 15, quando a sentença foi lida em plenário. O Conselho de Jurados entendeu que todos são culpados pela morte de Bernardo. O pai, médico Leandro Boldrini condenado a 33 anos e oito meses, a enfermeira e madrasta Graciele Ugulini a 34 anos e sete meses. A amiga da madrasta, Edelvânia Wirganovicz condenada a 23 anos e seu irmão, Evandro Wirganovicz a nove anos e seis meses, este último o único em regime semi-aberto. Independente do tempo que os assassinos ficarem na prisão, Bernardo não voltará. Para a comunidade, a sentença foi branda, mas fez justiça ao menino de 11 anos morto com superdosagem de midazolam, após ser inocentemente enganado.

Aos gritos de assassinos, muitas pessoas esperaram em frente ao fórum à saída dos condenados. Antes disso, foram até à casa de Bernardo e retiraram todos os cartazes que pediam por justiça: – A justiça foi feita, não queremos que esse local vire um ponto de peregrinação. Com cartazes e camisetas que lembravam a criança, também fizeram uma caminhada. Carlinhos, tido como pai por Be, com quem inclusive ele pediu para morar, com olhos marejados falou: É para lembrar o Be, e também um pedido de desculpas por não termos feito mais por ele. Agora o Be pode descansar em paz, disse.

Na foto, o último registro feito em Três Passos na noite dessa sexta. Um pai e um filho, amigos de Be, com as mãos ao céu, rezando. Doeu e mais uma vez nesses cinco dias a voz embargou. A Justiça não lhe traz de volta, mas lhe da paz! Descansa, Bernardo.

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