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ARISTÓTELES E OS TIPOS DE AMIZADES

29 de julho de 2019


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ARISTÓTELES E OS TIPOS DE AMIZADES

Valdir Vianna

O grande filósofo estagirita, Aristóteles, foi um pensador que atravessou milênios e marcou a história da filosofia, você já deve imaginar o tamanho de coisas que fora escrito sobre ele não é mesmo, o tanto de estudos, trabalhos acadêmicos, pesquisas, enfim, é inimaginável o tanto que seus estudos são de extrema significância para as ciências humanas e exatas, o sábio era um educador, fundou o Liceu, diziam que tinha o corpo franzino, feio, foi tutor de Alexandre, quando foi para Atenas teve aulas com seu mestre, Platão, era um profundo estudioso da política, da ética, moral, sua importância no ocidente é inestimada, pois ficou bastante conhecido para esses lados, graças a São Tomás de Aquino, que usou suas ideias e conceitos filosóficos para os conceitos cristãos da época, fortalecendo a religião católica na idade média, e suas influências são fortemente sentidas até o dias de hoje.

Pois bem, não estou aqui para explicar uma sinopse do grande Aristóteles que você facilmente poderia achar no Google, embora eu já tenha explicado um breve resumo, quero me ater aos estudos das relações humanas feito por Aristóteles, isto é, as formas como ele definiu a maneira como nos relacionamos com gente que pensa semelhante a nós, nossos “chatos prediletos” como dizia Quintana, ou ainda, os nossos amigos. Para Aristóteles, somente a amizade era capaz que criar uma experiência verdadeira do homem com outro homem, o ápice do pensamento aristotélico está voltado à ideia política e ética que existe na amizade, pois é uma questão de virtuosismo, termo que na filosofia de Aristóteles é de suma importância.

Na filosofia, mais precisamente no seu livro, “Ética a Nicômaco”, entende-se que Aristóteles dividia a amizade em três partes, embora ele desejasse compreender melhor as relações de virtude do homem com seus semelhantes, precisamos lembrar que seu pensamento é todo voltado à ética, moral e a política. Separava ele então, a amizade em, “Por prazer”, “por interesse” e “verdadeira”. Vejamos separadamente cada uma delas.

A AMIZADE POR PRAZER

É uma união onde os amigos sentem a necessidade se buscarem para satisfazerem um prazer recíproco entre si. Aqui não se busca a amizade pelo amor que ela é capaz de proporcionar, isto é, pela união de conhecimento, entendimento, precisão na causa, nesse sentido a amizade por prazer é uma mera busca para satisfação de uma necessidade, seja ela casual, interesse, visando algo, mas jamais por um sentido nobre. Aristóteles afirma ainda, “Sendo assim, as amizades deste tipo são apenas acidentais, pois não é por ser quem ela é que a pessoa é amada, mas por proporcionar à outra algum proveito ou prazer”, ele chamava isso de “acidental”, pois não era autêntica. Imagine agora quantos amigos você já teve, amigos moralistas, falsos, creio que a lista não seja tão pequena assim, não é mesmo.

AMIZADE POR INTERESSE

Aqui o ponto não é tão embaixo assim, pois a ideia que Aristóteles quis passar é semelhante a da outra acima, pois nesse tipo de amizade é onde os interesses suprem as necessidades que somente um amigo desse tipo consegue proporcionar ao outro, isto é, você tem o que eu preciso, sejamos amigos até eu satisfazer minhas vontades, depois cancelamos tudo, como um contrato. Mais reto e curto que isso? Impossível. Os que amam pela utilidade do amigo nunca são capazes de amar realmente o outro, pois é uma relação de negócios, de conflitos de egos, é uma ideia de uso e manipulação. Amigos assim jamais chegarão à forma mais nobre de amizade que veremos abaixo.

AMIZADE VERDADEIRA

Rara e leal é assim que podemos definir a ideia de amizade verdadeira que Aristóteles defendia. Parece um termo bastante clichê, palavras de uso cotidiano pela maioria das pessoas do mundo todo, mas saiba que para Aristóteles a amizade verdadeira era constituída de virtudes éticas e morais, porém também é feita de utilidade e prazer, pois considerava características boas para o convívio perfeito. Para Aristóteles a amizade verdadeira estava pautada na virtude, no ser bom e na busca pelo conhecimento, pois somente sendo bom e virtuoso é que se chega ao grau de sabedoria humana. Aqui é o ponto onde Aristóteles coloca uma relação entre a ética e a amizade, pois só se é bom quando se inspira outras pessoas a serem boas também, é uma parte significativa quanto a ideia de lealdade, camaradagem e respeito, valores que hoje em dia estão defasados.

Olha só que interessante essas reflexões que a filosofia nos traz, você pode estar se perguntando os motivos que o fizeram ter tais ideias, eu lhe convido a pensar mais a fundo, compreender que Aristóteles queria nos dizer que em diferentes fases da nossa vida, teremos diferentes tipos de amizades, na juventude – para Aristóteles – temos os amigos para que nos iluminem e nos livrem dos caminhos errôneos – aqui eu tive que rir – imagine se o sábio filósofo olhasse para os nossos jovens, teria uma decepção danada, pois é na juventude que fazemos os maiores erros aceitáveis da nossa vida. Já na velhice é onde a carência mora e as amizades longínquas nos tornam menos desesperados pela aceitação em algum espaço, afinal, já cultivamos ao longo da vida alguns verdadeiros amigos, que nunca são mais que os dedos da sua mão direita ou esquerda.

Tem gente por aí que adora se gabar do tanto de amigos que possui nas redes sociais, mostrando centenas – e até milhares – de “amigos” que adquiriu em um determinado tempo, gente assim eu não sei se choro ou se rio, pois não é aceitável racionalmente que a pessoa não consiga discernir a ideia de parceria, parceira virtual e os tipos de amizades. Se ela não sabe, mostre esse artigo a ela, diga a ela que a amizade é uma “alma com dois corpos”, como dizia Aristóteles. Você não deve confiar em quase ninguém, acredite, é a melhor coisa que poderá fazer, agora muito menos em gente que se diz “amiga pela internet”, isso é um ato falho e paramos por aqui, você tem que pensar por si só.

Claro, já tivemos amigos de muitos tipos, ora na infância, que alguns têm sorte de os terem até hoje, ora na puberdade, ora na juventude, na vida adulta e até na velhice, gente que se diz amiga por todo lado. O fato é que gostamos de nos interagirmos, de nos vangloriarmos, nos mostrarmos e por isso sentimos a necessidade de ter alguém ao nosso lado para que isso aconteça, assim como também gostamos de companhia, trocar ideias e pensamentos, compartilhar bons e maus momentos, para tudo isso precisamos de alguém que nos sirva como pilar, e alguns até como muro mesmo. Pois se engana aquele que acha que amizade é sinônimo de afeto, discordo, amizade deveria ser sinônimo de contraposição de ideias, isto é, não quero alguém que seja meu amigo somente para eventuais festas, finais de semana, diversões, “porralouquices” e afins, a amizade deve ser nutrida a base de digressões, ideias que enriqueçam a mente, fortalecimento de vivência e lealdade.

Mas sim, por vezes temos aqueles chatos que se dizem amigos, porém discordam o tempo todo de nossas falas e ideias, esses não fazem a mínima falta, pois se perderam no orgulho, e com certeza acham isso também de nós, portanto é bom se manter afastado de gente assim, esses só fazem falta para aqueles que não têm imposição e critério. Nós queremos mais. Não posso escolher o meu destino, mas posso escolher os meus amigos, sempre digo que sou um discípulo do estoicismo e um amigo de Epicuro, pois tento seguir a risca as ideias e ensinamentos deixados pelos sábios que tanto admiro.

Queremos amigos para vários momentos, amigos devem ser vistos diariamente se possível, ora um futebol, um churrasco, uma caminhada, uma viagem, um acampamento, uma banda, se Epicuro aqui estivesse, me ajudaria nessa ideia, pois a amizade é um dos três caminhos que ele descreveu para se chegar à felicidade, tá aí o motivo que sempre mantenho os meus “bons companheiros” por perto. Ah, e você deve estar se perguntando, “Tá, mas os amigos que casaram e não são mais nossos amigos hoje em dia?”, a esses eu cito Nietzsche, “A vida já está consumada”, já foram amigos, agora são meras lembranças, e lembre-se de Heráclito, tudo muda.

Obrigado pela leitura.

 

 

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