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CRÔNICA: O JARDINEIRO EUROPEU

16 de maio de 2019


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Por mais que desejasse, Antenor não saberia mostrar no mapa nem se quer o país que tanto almejava um dia visitar. Também pudera, a Espanha é tão colada na França que ele nem conseguiria distinguir Córdoba de Lyon – Eu não conseguiria – Mas pouco importava, Antenor mantinha seu sonho sempre bem iluminado com as luzes da esperança, mesmo que estivesse aparando os Pingos d’Ouro ou cuidando das Begônias, com seu aroma e visual mais atraente que o sorriso da jovem moça que lhe encantou pela primeira vez. Claro, há muitos anos atrás. Antenor sempre se lembrava das desgraças amorosas que teve na vida, dignas de um poema de Augusto dos Anjos ou de um abraço de Schopenhauer. Até parece piegas, mas é mesmo. Não faço blag com o amor – Só com gente apaixonada – Vez ou outra ele se furava nos espinhos de uma rosa ou outra flor dessas que são caras demais para um amor barato. Ele fazia todos os dias a mesma rotina, mas sempre observava o patrão sair de casa e ir para seu trabalho, nunca lhe davam bom dia, se quer um olá, ou um vale pro miserável poder torrar numa dessas coisas que ele gosta. O patrão é aquele sujeito respeitado – Não pelas ideias, mas pelo dinheiro – Ia à igreja todo domingo, com sua esposa e filhos, disso Antenor sabia bem, afinal, era o único momento que a mansão ficava praticamente sozinha, sem ninguém para não lhe dar bom dia, nem olá, era indiferente para ele, aproveitava e fazia um café, sem açúcar, colocava a Obra Noturna Número 02 de Frédéric Chopin no seu celular e lia algumas páginas de Khalil Gibran, tentando entender o que o profeta dizia. Fumava também seu cigarro, embora o médico já lhe advertisse, não se importava, sabia que dos seus males, a morte era a menor preocupação. Bem que faz. Entre um trago e outro, lembrava-se da Europa e de como iria fazer para conhecer a tão sonhada, Espanha e todas as suas maravilhas. Antenor caíra trabalhando ali pelo acaso, um amigo lhe indicara, pois não aguentou as ‘cobranças das chefias’ e lhe dissera que fez uma coisa que não deveria ter feito, o patrão não chegou a descobrir, suspeitou de outra coisa e o demitiu.  Mas mesmo assim indicou a “oportunidade” para o amigo – Que amigo hein? – Gostaram de Antenor, tinha uns tiques nervosos, uma calmaria dantesca, mas o coração era do tamanho do seu sonho, talvez isso encheu de compaixão em primeiro momento os futuros chefes que os contrataram em seguida. Deram-no as tarefas dignas de Sísifo, uma chave e mostraram-no a casinha nos fundos que seria seu mausoléu. Antenor gostou a priori. “Finalmente um imóvel pra chamar de meu, só me comportar bem e pronto!” – Pensou ele. Ali ficou por cinco duros anos, rolando as pedras até o topo da montanha, n’outro dia a mesma coisa. Mas ele era esperto demais pra morrer sendo apenas um serviçal de gente que nem bom dia lhe dava, muito menos perguntava se estava bem ou não, morava numa casinha nos fundos, como um cachorro. Os anos foram se passando – e a calmaria também – Já não tratava as Begônias com o mesmo esmero e nem se deixava rolar na ideia de não se importar se os chefes pouco ligavam para ele ou não. Antenor queria reconhecimento e ser mais valorizado! Colocou tudo num papel, pegou uma caneta daquelas que se ganha depois de assinado o empréstimo bancário e listou todos os prós e os contras na vida que levava. Notou que os contras estavam dando uma surra digna de Nobel nos prós. Ele era esperto, culto e quem olhava de longe poderia achar que era apenas um jardineiro, e era mesmo, mas foi na solidão que Antenor encontrou o conhecimento e deixou de ser um completo idiota – como esses que nos rodeiam – Foi na ignorância dos outros, na falta de compaixão dos outros, no tanto que o menosprezavam por ser apenas um jardineiro, tudo isso ele colocou em sua lista nos contras. Mas você deve estar se perguntando, o que ele iria fazer? A resposta é que nem ele sabia ao certo. Vontade ele tinha, mas como todo cara esperto, a coragem não é o seu ponto forte, pois quem é esperto pensa no depois.

Se já não cuidava mais tão bem assim das Begônias, agora ele tinha menos motivos ainda. Então numa noite dessas que os pernilongos resolvem nos contarem histórias, Antenor achou que seria uma boa ideia tomar um pouco de vinho e depois encerrar mais uma sina diária. Num embalo digno de invejar Bukowski, gritava e cantarolava algumas canções de Belchior, de repente, cochilou – Profundamente – Tão profundamente que acordou n’outro dia com fortes pancadas na mísera porta de alumínio que separava seu pequeno mundo da vida real. Era o seu chefe, que nunca se importava com ele, estava ali a bater na porta. Levantou-se e a luz do sol quase o cegou – Imagine Dióges e Alexandre – Então o chefe lhe questionara os motivos pelos quais ainda não estava acordado e cuidando do seu jardim. Como se em algumas poucas horas a grama fosse crescer, as flores murcharem e os lagartos invadirem tudo. Pensou, é claro, era esperto. Era “esperto”, isso sempre lhe diziam, mas quase que em um insight, essa palavra ecoou em sua mente – enquanto o chefe arrogante lhe despejara elogios – Do nada, um calor subiu lhe à cabeça, tirou coragem sei lá de onde, e disparou: – O senhor tem razão! Desculpe-me, exagerei no vinho ontem e não vi a hora passar. Isso não se repetirá. Dessa vez falou, nem acreditou que tinha voz para alguma coisa. O chefe o olhou de cima para baixo, disse para juntar suas tralhas – e o violão – e o mandou embora, disse que não queria balbúrdia ali na sua residência e que sua esposa se sentira com medo da gritaria d’outra noite, mas por respeito esperou pela chegada da manhã para lhe falar. Antenor entendeu, mas pensou consigo – Ora bolas, fiz mil coisas boas e numa única vez que errei, me condenaram. Talvez essa seja a sina mesmo.

Claro, memória de cachorro rancoroso é sempre assim. Ao sair da residência chutou as Begônias e mandou tudo pro espaço! Chutou o balde e ainda disparou para o antigo chefe e sua esposa que o olhavam atônitos.

  • Pois que se lasquem! Agora vou pra Espanha! E a propósito, sua esposa lhe traiu com o antigo jardineiro, otário.

 

VALDIR VIANNA

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