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CRÔNICA: O MARIDO QUE NÃO DANÇAVA PORQUE A ESPOSA NÃO QUERIA

15 de agosto de 2019


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CRÔNICA: O MARIDO QUE NÃO DANÇAVA PORQUE A ESPOSA NÃO QUERIA

Por Valdir Vianna

Coitado do Anselmo, era um próximo mesmo, deixava todos lhe dizerem como fazer as coisas e até como proceder em momentos que a ele apenas caberia decisão, era o legítimo “boca colada”, não tinha boca pra nada, nem para Cleusa, sua esposa – fria e calculista por sinal – Tinha um controle danado sobre o pobre homem, como aquelas senhoras que levam o marido na coleira, mas não porque era um completo idiota, mas sim porque já tinham culpa no cartório. Na juventude, Anselmo foi flechado pelo cupido, era recém formado em direito e Cleusa já tinha algumas horas de voo a mais que ele, seja na farmácia que trabalhava como atendente ou no curso de enfermagem que intercalava com o trabalho. Conheceram-se numa festa da cidade – aquelas que junta o povo todo e sempre dá briga – A partir dali foi uma melação desgraçada, era jantar pra lá, jantar pra cá, flores, chocolate, chimarrão na praça e tudo mais – me deu uma náusea aqui – Parece que quando se está apaixonado é o período em que o cérebro tira férias.

Não interessa, Anselmo amava Cleusa e como todo ‘recém namorado’ – tipo uns cinco anos –  os amigos não interessam mais, os olhos se voltam para o “docinho de leite, meu manancial de ternura, meu amorzinho…” e todos esses jargões que os apaixonados expressam entre si. Cleusa relutou o máximo que pode, mas o jovem legisperito a seduziu e ela não conseguiu escapar das garras do até então “conquistador”.

Mas como o futuro é uma viúva amarga, assim é o casamento, aquele amor todo se foi por água abaixo e junto com ele os amigos também. Anselmo tinha se tornado um canalha, e Cleusa souber aproveitar bem suas fraquezas. Você deve estar se perguntando o porquê dela ser tão deplorável com ele, não é mesmo?

Aqui é que entra Jandira nessa história.

32 anos, atraente, ruiva e apaixonada por festas e essas bobagens todas. Até aí tudo bem, tudo cinza. A encrenca começou quando ela foi estagiar no escritório de advocacia do sem noção do Anselmo, entre um bom dia e outro, uma caneta que caiu no chão, uma meia hora a mais depois do horário, uma carona até em casa, já foi o suficiente pra desencadear ali uma relação mais íntima, clichê dos brabos, tipo aqueles filmes de besteirol americano, mas o fato é que o amor é retardado mesmo, ele não é cego.

Obviamente não demorou muito para que Cleusa descobrisse tudo, não foi nada difícil, o homem era tão idiota que se esqueceu de apagar duas mensagens comprometedoras do seu celular. Uma era referente ao encontro num motel e a outra era o endereço com o horário. Cleusa era a típica mulher desconfiada de tudo que havia nesse mundo, até de seus pensamentos ela tinha uma antítese pronta. Seguiu, flagrou no ato e revoltou-se – não exatamente nessa sequência – O resto é imaginável. Não teve mais desculpas, ela agora tinha Anselmo nas mãos, afinal, ele tinha uma boa grana, era réu primário na traição conjugal e Cleusa pensou mil vezes se lhe daria outra chance ou mandaria tudo pro espaço.

Pois não é que deu mesmo.

Jandira nunca mais foi vista, acho que voltou para Minas, Anselmo se desiludiu de sua aventura frustrada que lhe custaria o casamento. Um cara tão quieto, passivo, casa-trabalho-casa, um Sísifo moderno, do nada se transformou num galanteador e gritou ao mundo sua liberdade. Mas não adianta, ele sabia que Cleusa era maquiavélica, aceitou as propostas dela, uma relação bem estranha, apenas interesses financeiros – Já não era amor mesmo fazia décadas, apenas se suportavam. Cleusa apenas fez da desgraça, o seu mausoléu de ouro.

Vejam só, hoje Anselmo é praticamente mudo e quando sai em festas com Cleusa, os outros sempre falam e cochicham entre si: “- Coitado mesmo, é um mané, não dança só porque a Cleusa não quer.”

Aaah, se os outros soubessem o quê a gente sabe…

 

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