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CRÔNICA: OU VIVEMOS OU NOS IMPORTAMOS

27 de maio de 2019


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Se cada vez que formos fazer algo e pararmos para pensarmos nas possíveis opiniões de terceiros, eu acho que o problema da traição estaria resolvido e ninguém mais pediria a mão da dama para uma dança. Eu acho que até os pássaros ficariam com vergonha de defecarem em nossas cabeças enquanto passávamos apressados por alguma praça ou parque.

Não teríamos mais lixo nas ruas e não haveria crime algum, as cadeias estariam vazias, afinal, tudo começa quando me importo com a opinião do meu irmão, de quem me olha, me cobra, me julga e me critica e se eu começar a acreditar que a vida segue realmente esse dogmatismo e imperativo categórico, eu me fecho no meu quarto e de lá não saio tão cedo.

Assim pensa aquele que acredita no mundo em que a opinião dos outros importa tanto a ponto de deixar afetar sua vida. Afeta muito mesmo, em índices alarmantes aonde eu já nem vivo a minha vida, apenas me importo com tudo que vão pensar sobre mim, isto é, eu levo essa desgraça toda para dentro de minha’lma. Pobre João, que de tanto amor morreu sem tesão.

Nunca conheceu o amor, pois se importava demais com o que achariam de sua ideia de amar. Nunca conheceu o íntimo de ninguém, afinal, o que o outro iria achar de sua posição frente a frente. Nunca conheceu nada que não fosse o que via na televisão e do que pesquisava na internet, acreditava em tudo que lhe diziam e só contrariava ferrenhamente quem fosse contra suas ideias. Típico idiota pseudo intelectual, desses que a gente vê por aí, que contemplam a arrogância sentados de seu altar de ego inflado – às nossas custas, que coisa… – Parece que esse já vive demais… Demais preocupado consigo mesmo, me perco às vezes nessas digressões sobre os canalhas, que até confundo não viver com viver demais. Martin Heidegger que o diga. Chamava isso de vida inautêntica. Mas sei de duas coisas:

Ou vivemos…

Para buscarmos os nossos objetivos, nossas metas, aquilo que colocamos como norte, para sermos reconhecidos pelas nossas qualidades e o bem que fizemos para os demais sem esperar lucro algum. Vivemos para mostrarmos para nós – nunca para eles – que somos nossa melhor versão, inéditos e exclusivos, somos metamorfose do progresso, somos a melhor coisa que poderia ter nos acontecido. Especiais, frutos da evolução – mas com certeza não sozinhos nessa imensidão de incertezas – Enfim, somos filhos estoicos da vontade de viver sem se importar se todos nos observam dançando, azar o deles por não saberem dançar.

Ou nos importamos…

Se nos importamos, não dançamos, não amamos, não gritamos – de vez enquando – Não enlouquecemos momentaneamente, não ficamos bêbados, insuportáveis, chatos, não olhamos para nada, apenas aceitamos os trilhos que nos foram colocados os vagões e o destino, é desconhecido.  Ora, bolas… Se não me importo então tão pouco me interessa o que faço com a minha vida, tenho tanto medo de mim mesmo, imagine da opinião do outro. Um flagelo, um tiro certo na veia do acaso. Se me importo excessivamente com a opinião dos outros e suas análises, eu não vivo, eu nunca vivi, só existo.

Tem gente que morre com vontade de viver tudo de novo, mas só lembra disso quando o desespero toma conta. Talvez se importou demais e acabou esquecendo que se viver bem e de forma refletida, uma vez já basta. Lembro-me que já li uma frase do Sinatra sobre isso, verdade, e que reflexão bem pensada, hein. Dizia o grande gogó de ouro:

“Só se vive uma vez, e da maneira como vivo, uma vez já basta.”

Essa é a reflexão que devemos ter para nossas vidas, a todo tempo, para nos perguntarmos qual é a vida que vale a pena vivermos.

A que eu vivo ou que vivo para os outros?

 

VALDIR VIANNA

Professor de Filosofia e Escritor

 

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