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Brasil se despede de Luis Fernando Verissimo, um dos maiores nomes da literatura e do humor nacional

Criador de personagens marcantes como o Analista de Bagé e a Velhinha de Taubaté, o escritor enfrentava complicações decorrentes do Mal de Parkinson e de um AVC sofrido em 2021.

30/08/2025 07:01 por Bruno Vargas


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Raul Krebs


O Brasil perdeu neste sábado, em Porto Alegre, um de seus maiores talentos da palavra: Luis Fernando Verissimo faleceu aos 88 anos. A informação foi confirmada pela família à colunista Juliana Bublitz. Discreto no cotidiano e certeiro na escrita, Verissimo deixa uma vasta contribuição à cultura brasileira.

Criador de personagens marcantes como o Analista de Bagé e a Velhinha de Taubaté, o escritor enfrentava complicações decorrentes do Mal de Parkinson e de um AVC sofrido em 2021. Estava internado desde 11 de agosto no Hospital Moinhos de Vento com um quadro de pneumonia.

Filho do célebre Erico Verissimo e de Mafalda Verissimo, Luis Fernando era um artista completo: escritor, cronista, tradutor, roteirista, cartunista, romancista, saxofonista e autor de teatro. Deixa a esposa, Lúcia Verissimo, com quem foi casado por mais de 60 anos, os filhos Fernanda, Mariana e Pedro, e dois netos.

Com seu humor afiado e olhar irônico sobre a vida, Verissimo sabia rir de si mesmo. Dizia:

— A falsa ideia, entre meus amigos, de que eu falo pouco se deve ao fato de que entre eles eu não tenho oportunidade. Eu não sou quieto, sou é muito interrompido.

Já sobre a morte, uma vez provocou:

— Meu medo é que tenha outra vida após a morte, mas que seja só para debater esta.

Uma trajetória que cruzou fronteiras

Nascido em 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre, Verissimo mudou-se ainda criança para os Estados Unidos, quando seu pai foi lecionar na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Voltaria a viver lá na adolescência, estudando no Roosevelt High School, em Washington, onde também descobriu o jazz e aprendeu a tocar saxofone.

De volta ao Brasil, iniciou sua carreira profissional na antiga Editora Globo, em Porto Alegre. Na década de 1960, já no Rio de Janeiro, trabalhou como tradutor e redator publicitário. Em 1967, retornou à capital gaúcha para atuar como revisor no jornal Zero Hora. Pouco tempo depois, em 1969, conquistou sua primeira coluna diária, substituindo Sérgio Jockyman.

Na estreia como cronista, escreveu sobre sua paixão pelo Internacional, dias após a inauguração do Beira-Rio, que receberia o Grêmio em amistoso histórico.

— Não é que eu não tivesse planos. Tive vários, só que nenhum deles deu certo. Só descobri minha vocação quando comecei a escrever no jornal — contou, em 2016.

Do jornal às livrarias e aos palcos

Em 1970, transferiu-se para o jornal Folha da Manhã, onde permaneceu até 1975, quando voltou de vez à Zero Hora e passou a colaborar com o Jornal do Brasil. Entre 1982 e 1989, escreveu semanalmente para a revista Veja, com textos bem-humorados que o tornaram ainda mais popular.

Além da literatura, nunca deixou de lado a música. Em 1995, passou a integrar o grupo Jazz 6, como saxofonista.

Em 1999, começou a escrever para O Globo e, em 2013, estreou no Estado de S. Paulo, após um período de internação em 2012 que mobilizou o país.

O mestre das crônicas

Com mais de 60 livros publicados e milhões de exemplares vendidos, Verissimo criou personagens inesquecíveis como Ed Mort, o Analista de Bagé e a Velhinha de Taubaté.

Seu trabalho também brilhou nas artes gráficas, com as tiras “As Cobras” e as charges da “Família Brasil”. Sobre seu estilo, declarou:

— Não sei se o que faço é charge, mas com certeza não é cartum, porque não é atemporal. Talvez um "cartum atual".

Sua estreia nas livrarias foi em 1973, com a coletânea O Popular. Em 1975, lançou A Grande Mulher Nua e, em 1979, Ed Mort e Outras Histórias. Um dos seus maiores sucessos, O Analista de Bagé, foi lançado na Feira do Livro de Porto Alegre de 1981.

Comédias da Vida Privada, de 1994, transformou-se em minissérie de sucesso na TV Globo, com direção de Guel Arraes e Jorge Furtado, e atuação de Marco Nanini.

Reconhecimento e legado

Em 1996, foi eleito Intelectual do Ano pela União Brasileira de Escritores, tornando-se o primeiro humorista a receber o Prêmio Juca Pato. Em 2003, a New York Public Library escolheu O Clube dos Anjos como um dos 25 melhores livros do ano.

Nos últimos anos, sua vida e obra foram tema de documentários como Luis Fernando Verissimo — O Filme (2023), dirigido por Luzimar Stricher, e Verissimo (2024), de Angelo Defanti.

Desde 1999, sua obra passou a ser publicada pela Companhia das Letras, por meio do selo Objetiva. Em 2020, chegou às livrarias a coletânea Verissimo Antológico — Meio Século de Crônicas, ou Coisa Parecida, reunindo mais de 700 páginas de textos publicados ao longo de décadas.

Luis Fernando Verissimo partiu, mas seu legado permanece vivo nas palavras que nos fez rir, pensar e sentir. Um mestre da ironia, um cronista do cotidiano, e, acima de tudo, um contador de histórias que soube traduzir o Brasil com leveza, profundidade e inteligência.

GZH



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