Propriedade de agricultor morto em ação da BM era diferente da descrição de informante; veja o que a investigação já apurou
Marcos Nörnberg morreu após trocar tiros com brigadianos que entraram em seu sítio na madrugada de 15 de janeiro, em Pelotas
02/02/2026 10:04 por redação
Propriedade de Marcos Nörnberg tem três estufas para o cultivo de morangos; "a que falo não tem estufa", disse informante preso. Divulgação / Arquivo pessoal
Evidências e depoimentos nas investigações em andamento pelas polícias civil e militar apontam para uma cadeia de equívocos que contribuiu para a morte do plantador de morangos Marcos Nörnberg, no último dia 15 de janeiro. Ele foi morto em seu sítio, na zona rural de Pelotas, após resistir a tiros a uma abordagem de integrantes da Brigada Militar. Zero Hora reconstituiu o que aconteceu naquela madrugada e nas horas que antecederam a operação da BM. Veja, a seguir, o que já foi possível apurar.
Sítio invadido era diferente da descrição recebida
Um relatório preliminar das investigações aponta a existência de diferenças estruturais, funcionais e ambientais entre o sítio que foi alvo da ação policial e o suposto esconderijo da quadrilha que os policiais procuravam a partir de uma informação recebida pela polícia do Paraná. A conclusão é de que a propriedade onde ocorreu a morte do produtor rural "não corresponde ao local descrito nos áudios que subsidiaram a deflagração da operação policial".
A raiz da confusão está na troca de informações entre PMs gaúchos e paranaenses. Às 22h de 14 de janeiro, o serviço reservado da BM (P2) de Pelotas começou a receber uma série de mensagens de WhatsApp enviadas por policiais do Batalhão de Fronteira da PM de Guaíra, cidade do Paraná situada na fronteira do Paraguai, do qual está separada pelo lago Itaipu. As informações eram de que dois bandidos gaúchos, presos naquela noite, tinham revelado a existência de um esconderijo de drogas, armas e carros roubados num sítio pelotense. A dupla tinha sido capturada em flagrante tentando ir para o Paraguai vender duas caminhonetes roubadas, uma S10 e uma Ecosport.
A informação inicial fora fornecida por Kauã da Rosa Dias, preso junto com Alan Fagundes Gonçalves. Os dois seriam de uma facção criminosa pelotense. Um policial paranaense avisou por mensagem de áudio a um colega gaúcho:
— Cara, o preso que trouxe a S10 abriu a boca. De onde pegaram essa tem mais carro e caminhão.
Ele acrescentou:
— Tão armados e vão receber a tiros, melhor montar uma operaçãozinha.
O preso Kauã descreveu que sua quadrilha estava se abrigando provisoriamente numa fazenda. A descrição: uma casa de alto padrão, com porteira eletrônica e guarnecida por quatro cães, onde estariam ocultos um caminhão sem as rodas, dois Citroen e um reboque roubados. Uma carga de drogas estaria escondida no reboque e num depósito de pneus. Homens armados com pistolas guarneceriam a fazenda, que tinha sido invadida por ladrões e traficantes — inclusive mantiveram o caseiro refém por 36 horas. Seria um esconderijo provisório.
O PM paranaense passou a geolocalização de um sítio em Pelotas, com base no relato feito por Kauã. A coordenada coincide com o sítio de Marcos Nörnberg, mas a descrição do local, não. Os PMs paranaenses mostraram ao ladrão Kauã uma imagem de satélite na qual aparecia o sítio de Nörnberg. Ele respondeu:
— A chácara é diferente da que está no mapa, a que falo não tem estufa.
A propriedade dos Nörnberg possui três grandes estufas para cultivar morangos.
Levantamento do local foi realizado à noite
Os PMs pelotenses optaram por agir de imediato. O levantamento do local, um sítio na BR-392 (que liga Pelotas a Canguçu), foi feito na escuridão, o que pode ter dificultado a conclusão de que o lugar não se parecia com o descrito pelo assaltante.
O sítio de Marcos Nörnberg tem três casas (e nenhuma mansão). Não há depósito de pneus. Nenhum caminhão sem rodas está ali, apenas um caminhão-baú. Não existiam carros Citroen no local, nem reboque. Os cães são três e não quatro. Não havia homens com pistolas no local.
Vídeo mostra ação dos policiais na madrugada de 15 de janeiro
Força-tarefa foi montada para surpreender traficantes
Mesmo diante das contradições que apareceram, os PMs pelotenses decidiram entrar no sítio. Convocaram a maioria das equipes disponíveis do 4º Batalhão de Polícia Militar (BPM) e do Batalhão de Choque para invadir o suposto QG da quadrilha. Conforme os depoimentos, um tenente do 4º BPM foi avisado e pediu permissão a superiores para agir. A força-tarefa era formada por 18 sargentos e soldados, com a missão de surpreender os bandidos em flagrante.
A invasão ocorreu às 3h. Nos depoimentos, os PMs descrevem um pouco da confusão daquela noite de janeiro e os minutos finais do produtor rural. Para causar surpresa, os brigadianos chegaram ao sítio a pé, sem viaturas e seus sinais luminosos ou sirenes. Pelo menos três brigadianos não trajavam farda (eram do serviço reservado). Nörnberg, acordado pelos latidos dos cachorros, pensou que eram assaltantes, mesmo após ouvir os gritos de "Polícia, é polícia!", como descreveu a esposa dele, Raquel Motta, que estava na casa com o marido. Marcos tinha porte de arma porque a propriedade tinha sido assaltada há 10 anos, e os pais de Marcos ficaram reféns durante várias horas.
Vídeos de câmeras de monitoramento gravaram dois estampidos de arma de baixo calibre, que seria uma carabina .22 pertencente a Nörnberg - há indícios de que ele a empunhou e cápsulas deflagradas dela foram encontradas no chão. Os PMs revidaram com 16 disparos seguidos, gritando "Te entrega, magrão" (ou "te entrega, ladrão", segundo alguns moradores do sítio). O produtor rural não respondeu, talvez já atingido pelos disparos.
Soldado veterano admitiu ter dado último tiro
Os policiais invadiram a casa derrubando portas e dando tiros. Quando cessaram o tiroteio, um dos PMs gritou: "Mexeu a cabeça!". E logo em seguida se ouviu um derradeiro disparo de fuzil. A viúva de Nornberg, Raquel, estava na sala, a 20 centímetros do marido, e assegura que ele foi atingido por este tiro, quando ainda estava vivo.
As duas investigações em curso, da BM e da Polícia Civil, ouviram o soldado que teria dado o último disparo em Nörnberg. Um dos mais veteranos de Pelotas, o policial admitiu que esse derradeiro disparo foi dele, com um fuzil calibre 5.56 mm (modelo Taurus T4), mas não soube dizer se acertou. Afirmou acreditar que o projétil pegou entre a cama e um sofá. E assegurou só ter apertado o gatilho porque um homem (Nörnberg) estava atirando em seus colegas e apontou a arma para ele. O PM ainda relatou ter observado uma pessoa deitada ao lado do sujeito armado (era a dona do sítio, Raquel).
O soldado confirmou ter falado "Mexeu a cabeça!", mas seria um alerta aos colegas para não serem surpreendidos pela movimentação de Raquel. O PM disse que atirou, subiu no sofá e puxou a pessoa de trás, que estava a cerca de dois metros do atirador (Nörnberg). Só então reparou que era uma mulher.
Tortura descrita pela viúva e erros na operação serão investigados no Inquérito Policial Militar
Raquel diz que permaneceu detida dentro da própria casa pelos PMs, por um período de uma hora e 40 minutos, obrigada a ficar ajoelhada sobre cacos de vidro, próxima do corpo do marido. Os policiais a teriam ameaçado de morte, caso não revelasse seu "nome verdadeiro" e o nome do marido — os brigadianos achavam que o casal pertencia a uma quadrilha.
Os PMs ressaltaram que Nörnberg teve oportunidade de se render, mas ficou em silêncio, até para surpresa deles. O laudo de necropsia aponta pelo menos oito orifícios causados por tiros no corpo do produtor rural - os fatais, entre o peito e o pescoço. O corpo tinha marcas de pólvora nessa região, como as provocadas por disparos à queima-roupa.
A morte do produtor rural é investigada pela Polícia Civil, num inquérito com prazo de 30 dias (prorrogáveis). Os possíveis erros de procedimento policial e a tortura descrita pela viúva de Nörnberg devem ser abordados no Inquérito Policial Militar, que tem 40 dias de prazo (também passíveis de prorrogação).
Contraponto
Zero Hora pediu entrevista, ao longo de uma semana, ao advogado dos PMs, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
GZH
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