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“Vida Fácil”

2 de julho de 2019


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“Vida Fácil”

Dinamárcia Maciel de Oliveira

 

Nessas minhas andanças pelo Estado, cumprindo com as funções de Promotora de Justiça, tive a honra de trabalhar com grandes profissionais do Direito e da Segurança Pública, incansáveis no cumprimento de suas funções, cientes da diferença que podem fazer na vida das comunidades onde atuam.

Lembro, certa vez, numa Comarca de médio porte onde fui titular, haver um grupo singular assim como referi: havia um Delegado de Polícia que veio de fora do Estado para realizar o sonho de sua vocação, havia outros três colegas Promotores de Justiça de gigantesca operacionalidade, havia três Juízes de Direito comprometidos com  entrega de uma Justiça mais célere e descomplicada à população, havia um Comandante da Brigada Militar com grande liderança de seus comandados e sempre disponível para os enfrentamentos necessários, havia Conselheiros Tutelares muito participativos e preparados. Enfim, era um “grupo parelho”, como se diz.

Foi nesse período, então, que chegou até minha Colega com atribuições na área da proteção à Infância e Juventude uma notícia, de que os prostíbulos locais estavam explorando sexualmente meninas adolescentes. Situação complicada de comprovar sem um flagrante, porque quem vai lá não conta, e quem lá trabalha muito menos diz alguma coisa que sirva como prova do ocorrido.

Mas o grupo era especial, como disse, e logo aderimos à ideia de montarmos uma grande operação, com equipes mistas, para chegada simultânea nos principais pontos de prostituição da cidade – e eram muitos esses pontos, aliás. Formamos, então, quatro grupos, cada um com Promotor de Justiça, Oficial da BM, Delegado de Polícia ou Policial Civil, Soldado da BM e Conselheiro Tutelar. Encontramo-nos às 00h30min no pátio da Promotoria de Justiça e saímos em quatro viaturas, cada uma para diferente região da cidade.

Lembro que eu usava botas, calça reta, jaqueta com bolsos e cabelos presos. A minha Colega chegou à Promotoria de Justiça com escova alinhada, maquilagem perfeita, usando um terninho preto lindo e sapatos de salto alto. Estava muito elegante. Eu só perguntei o porquê dela estar tão caprichada para uma atividade que poderia trazer situações inesperadas de enfrentamento e deslocamento. Ela respondeu: “Dina, querida, eu não posso correr o risco de ser confundida com uma das funcionárias do lugar.” Rimos daquilo. Pensei como é fantástica a diversidade de leitura que se pode ter de um mesmo momento ou circunstância, afinal de contas.

Na rua, a caminho da primeira casa de prostituição a ser visitada por minha equipe, chegamos numa casinha de madeira, branca, porta e janelas azuis, com um jardinzinho na frente e sem “luz vermelha” ou qualquer outro indicativo clichê de que ali funcionasse um “Cabaret”. Pois então. Lá não havia adolescentes na prostituição. Havia, sim, vários clientes aguardando na sala da frente, entre eles um compadre da Conselheira Tutelar que me acompanhava. Foi um constrangimento absoluto, podem ter certeza disso. O sujeito implorava à comadre que não o denunciasse; ela, por sua vez, encheu-se de autoridade para dizer que ele saísse dali imediatamente, ou…

Na próxima parada, a situação não foi menos tragicômica. Eram duas casinhas do tipo “volante” (unidades de madeira rústica, parecidas com um vagão de trem), encaixadas, alinhadas, sobre um terreno irregular e com muita sujeira nas imediações. Um poste com luz fraca era a iluminação que havia na parte externa do imóvel, onde estava fincada uma fila de gaúchos esperando a vez do encontro furtivo. Acontece que uma das moças, ao receber a mensagem “Polícia, todos com documentos em mãos!”, apaixonou-se subitamente pelo Delegado de Polícia que estava no nosso grupo e disse que ele a revistasse primeiro, que dele nada cobraria (!). Não bastasse isso, um dos clientes na fila queria saber se prenderíamos todos os outros homens que estavam dentro da humilde casa, muito provavelmente na ânsia de ver chegada sua vez, creio eu. Ao me ouvir dizer que apenas haveria prisões caso encontradas drogas, armas ou menores de 18 anos lá dentro, o gaudério comentou, com visível pesar, com o outro parceiro de fila: “Por isso que a bandidagem tá do jeito que tá. No meu tempo valia o “teje preso”; agora, desse jeito, é só conciação, conciação…

Mas nem tudo pode ser visto pelo lado bem humorado da vida, infelizmente. No final daquela madrugada, encontraram-se as quatro equipes na principal casa de prostituição da cidade e com renome na região. Era o maior prostíbulo, com salão de boate e tudo, frequentado por gente mais afortunada, com melhor posição social e financeira. Lá havia garotas “vip”, todas maiores de idade, entre 19 e 21 anos, algumas vindas de São Paulo para temporadas de serviço, universitárias e com status de modelo, inclusive, cobrando cinco mil por uma noite (isso há uns quinze anos atrás). Numas suítes havia até piscina nas sacadas. Impressionante para os padrões do interior, realmente. Acontece que ali também havia quartinhos nos fundos do terreno, para clientes menos abonados, e com profissionais do sexo de menor formosura, por assim dizer.

E foi ali, nos cômodos baratos, dos fundos do prédio, que entrei para fiscalizar, acompanhada por um soldado da BM. Encontramos maconha na mesinha de cabeceira do primeiro aposento, o qual estava desocupado. Apreendida a droga, passamos ao segundo quarto, onde estava uma mulher de uns trinta e poucos anos, baixinha, gordinha, de short jeans muito curto, top de malha rosa, cabelos num amarelo gritante, chinelinhos nos pés, sentada na beira da cama de casal mimosamente vestida com uma colcha de cetim vinho com bordados e babadinhos da mesma cor. Numa cômoda de madeira escura, na frente, havia surpreendentes imagens de santos católicos, bíblia, flores e rosário. Lembro que fiquei perplexa, sem reação, por alguns segundos. Consegui romper aquela estática e exclamei, sem conseguir abstrair minha fé: “Moça, como você consegue, como você pode vender seu corpo na frente das imagens sagradas !?” Ora essa, imediatamente me arrependi de dizer isso –  sou humana, afinal de contas.

Mas a resposta que veio daquela mulher, sofrida e cuja história não me cabia julgar, eu escuto até hoje nas minhas lembranças, com piedade e tristeza pelas misérias humanas: “Doutora Promotora, esses Santos é que me protegem para que eu não fique doente. Os caras não querem usar camisinha, e eu preciso do dinheiro, porque sustento dois piá e mais minha mãe, e ninguém me dá emprego como doméstica porque sabem do meu passado. Sem esses Santos aqui, eu já teria AIDS, eu que sei.” Eu saí dali em silêncio e encerrei o trabalho naquela longa madrugada, perto das 5 horas. Levara mais uma lição para a vida: “mulheres de vida fácil” essas “Damas da Noite”, diziam os antigos. Fácil? Sério isso?! Para quem?

Vida que segue, afinal de contas.

Até a próxima.

 

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