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A cozinheira e a porteira: um desfecho impressionante

5 de setembro de 2019


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A cozinheira e a porteira: um desfecho impressionante

Dinamárcia Maciel de Oliveira

 

Rememorei momento distante de minha trajetória profissional no último artigo publicado: a história de um andarilho que surgira na cidade, maltrapilho e com pensamento desorganizado, sem saber ao menos quem era. Foi localizado e atendido pelo Serviço Municipal de Saúde e encaminhado para acolhimento.

Com base em informações aleatórias do atendido, anotadas por ele em num caderninho, tentamos buscar alguém que o conhecesse nas bandas da localidade sobre a qual mais ele escrevera. Dizia recordar-se de uma cozinheira, chamada Rosa, e da porteira, grande e antiga, de uma fazenda.

Com o auxílio da emissora de rádio da Comarca vizinha e de uma Colega Promotora de Justiça conseguimos divulgar, para a região, que havia essa pessoa, sem memória, em busca de parentes próximos. Logo surgiu alguém que percebeu algo familiar naquele discurso, sobre a fazenda, a cozinheira e a porteira, e teve a alegria de identificar o rosto do irmão, desaparecido há mais de dois anos, no retrato que fizemos dele.

No dia seguinte ao reconhecimento por foto, o tal irmão estava na minha frente, ansioso, aguardando a chegada do nosso paciente, trazido pela equipe do Município. Foi comovente o reencontro deles, inclusive para a nossa equipe, na Promotoria de Justiça. Ora, o nosso paciente tinha nome, sobrenome, uma família e uma origem. Como eu já disse aqui, “milagres acontecem”.

Mas, passada a emoção do reencontro de quem já era dado como morto pela família, o irmão pediu-me agilidade para liberar o paciente, pois precisava retornar à localidade onde viviam, antes do anoitecer. Era muito importante ficar liberado para voltar antes do anoitecer, dizia-me ele.

Percebi na narrativa apreensiva do irmão do paciente um algo a mais, que não me era dito por ele. Fui direta, como de toda sorte sou: “Afinal de contas, por que tanto receio do anoitecer?! ”

E, então, como pedi uma resposta, ganhei bem mais que o esperado, talvez uma das narrativas mais estapafúrdias que já ouvi em mais de vinte anos de carreira: “Pois, Doutora, a Senhora precisa saber que igual a esse mano eu tenho outros quatro lá. Nós somos seis irmãos ao todo e o único que é bom da cabeça sou eu. Como acabou o remédio e o dinheiro, e eu precisava vir buscar esse aqui, eu deixei os outros quatro lá, no sítio, cada um amarrado numa árvore, para não se matarem. Mas como tem muita cobra e morcego naquelas bandas, preciso voltar antes da noite, para cuidar deles.

Eu nem sei ao certo expressar ao leitor o meu grau de perplexidade naquela hora. Até hoje penso nisso. Mas, como em nossa atividade não temos licença poética para divagar sobre as misérias humanas sem a pronta atuação para proteção dos vulneráveis, tratei de agir, depois que recolhi meu queixo do chão.

Liguei para a Promotoria de Justiça de origem e solicitei que, imediatamente, chamassem ambulância e equipe do Serviço Municipal de Saúde, para deslocamento até o sítio da família em questão, para socorro aos amarrados. Isso foi feito. Estavam relativamente bem e foram medicados.

De fato, tudo que me foi dito pelo irmão do nosso paciente era verídico. Uma família inteira com transtornos mentais, vivendo sozinha, num fundão de campo, cuidada por um único membro (menos perturbado que os demais, mas também com alguma dificuldade de compreender a gravidade da situação, se me permitem dizer).

Diante desse inusitado ocorrido, não liberamos logo nosso paciente para o retorno para casa. A volta foi mais lenta, já que toda a família precisava de cuidados lá, na origem, antes de receber de volta o “fujão”. E mais uma lição foi recolhida para a vida, que não cansa de nos surpreender.

 

Até a próxima!

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