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A DIVINA COMÉDIA E OS NOVE CÍRCULOS DO INFERNO DE DANTE

30 de abril de 2019


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Vamos mexer um pouco com o nosso lado mais místico, curioso e que não dominamos com tanta certeza, afinal, ainda nos é desconhecido.

A primeira vez que li a Divina Comédia eu praticamente não queria mais parar, era como se tivesse lido num fôlego só. Como se sabe, foram feitas inúmeras traduções em prosa ou verso, li os dois, mas em prosa me cativou mais. A tradução de Eugênio Vinci de Moraes foi de certa forma uma bela maneira de compreender mais lucidamente a criação de Dante Alighieri no seu maior clássico, e que em minha opinião foi a maior obra da história da literatura. Danem-se os clichês, a forma como Dante descreve os detalhes criados por ele mesmo, é colossal, é apoteótico, dantesco, para usar um termo que condiz realmente com a obra. Levado pelo poeta Virgílio – criador do clássico, Eneida – Dante adentra na aventura pelo inferno e purgatório, conhecendo os pecadores que lá estão divididos em nove círculos infernais, de acordo com o grau de seu pecado. É uma quinta-feira da semana santa de 1300 D.C. – No tempo de Dante eram conhecidos somente três continentes, Europa, Ásia e África, e ele acreditava que no lado oposto à Jerusalém era o Purgatório, buraco interligado ao inferno, feito pela queda de Lúcifer.

Eis um breve resumo antes da explanação. Ao entrar na floresta, perdido, Dante é salvo de três feras por Virgílio – um poeta italiano – então adentram ao Inferno e lá já observam a primeira escrita que os alertava:

“Vós que aqui entrais, abandonais toda a esperança.”

Já na antessala, ficam os indecisos, picados por vespas sem parar, e seu sangue se mistura com as lágrimas que escorrem aos pés, sendo posteriormente roídos pelos vermes. Encontram então Aqueronte, onde no rio, com o mesmo nome, o barqueiro que na mitologia grega leva as almas para o início da descida rumo ao inferno.

Conforme Dante e Virgílio vão passando pelo inferno, eles vão reconhecendo várias pessoas que na terra estiveram e muitos políticos florentinos, papas, filósofos, inclusive Epicuro se encontra logo no Primeiro círculo, chamado de Limbo, onde ali estão as almas daqueles que não foram batizados e nasceram antes da vinda de Cristo. O Segundo círculo é o “Vale dos Ventos”, onde o julgamento dos pecados é feito por Minos, que estipulava o círculo do inferno de acordo com o grau do pecado. O terceiro círculo é o “Vale da Lama”, destinado aos gulosos, lá estão atolados na lama sobre incessante chuva de fogo, sem falar com os outros, já que em vida a alegria se resumia em comer além do limite. Acho que vou pra lá!

Brincadeiras à parte, o Quarto círculo é a famosa “Colina de Rocha”, lá é onde estão os avarentos, lugar destinado aos gananciosos, aqueles que querem mais, a qualquer preço e a qualquer custo. Sua condenação? Empurrarem pesadas barras de ouro, um contra o outro e trocarem injúrias por toda a eternidade. Já pensou que você encontra aquele teu colega de trabalho por lá? O Quinto círculo é o lugar da Ira, aqui desce uma cachoeira que deságua no Rio Estige, de águas mais roxas, com sangue borbulhante e mais fervescente do que qualquer coisa. O mais interessante aqui é que as borbulhas são ocasionadas pelos rancorosos, que não demonstram sua ira e ficam remoendo uma angústia infernal. Já os raivosos são condenados a brigarem entre si, infinitamente, durante toda a eternidade eles se esbofeteiam nas margens do Rio Estige. Dante encontra um antigo inimigo, a raiva toma conta, mas ele a domina.

O Sexto círculo, é destinado aos Hereges, praticamente residem num cemitério de fogo, onde são expostos em caixões abertos, onde o fogo sai de seus corpos durante toda a eternidade. Aqui o paradigma é o mesmo da punição feita pela Igreja Católica: a fogueira aos hereges.  O Sétimo círculo, é destinado aos violentos, onde estão os assassinos, tiranos e assaltantes, levando flechadas incessantes, é o “Vale do Flegetante”, lá estão vários tipos de violentos, contra os outros, os suicidas e os contra Deus. Aqui os assassinos estão imersos em sangue que derramaram na terra. O Oitavo círculo, é conhecido como “Malebolge”, dividido em dez fossos, onde se condenem diversos pecadores em seus mais variados graus: Os simoníacos, os ladrões, os hipócritas, os corruptos, os rufiões, os sedutores, os lisonjeiros, os falsários e maus conselheiros, e aqueles que disseminaram a discórdia em vida. Os condenados deste círculo passarão o resto da eternidade tendo seus corpos roubados. O último e Nono círculo, “O Lago Cócite”, é onde reside Lúcifer, lá é frio, e residem os traidores, seja da família ou pátria, a raiva é tanta que se alimentam do cérebro dos outros.  Quando Dante se livra de Lúcifer, ele o descreve como uma figura de três cabeças, com asas que batiam incessantemente, um lugar gélido, o que fazia oposição à ideia que ser um lugar quente e fervoroso. Sobe então pelas costas de Lúcifer e cai na ilha do purgatório, onde os anjos o guiam na subida, também com níveis de libertação, mas ao chegar à porta do Paraíso, Virgílio não pode adentrar, está corrompido, Dante encontra sua amada Beatrice e é levado a Deus com a ajuda de São Bernardo. Magnificamente se encerra a comédia. Tudo é levado ao número 3, seja o ano de 1308, as três feras que Dante encontra na floresta, a alusão à Santíssima Trindade, os 33 versos de cada livro, o número 3 sempre foi usado de forma mística e curiosa por toda a identidade literária e religiosa.

O objetivo aqui é bem simples, mostrar ao amigo leitor as maravilhas que ele encontra ao ler clássicos da literatura, ainda mais quando se estuda e compreende uma obra majestosa como foi a Divina Comédia. Até então, não se tinha uma ideia sobre o inferno, mas foi com Dante que tudo se tornou mais apocalíptico ainda, mesmo sendo apenas fruto da imaginação do poeta, entenda o quão fértil era suas criações e o impacto que causou no mundo medieval e que perdura até hoje, sendo motivo de leituras, reedições, traduções, admirações onde quer que o nome do Florentino seja citado.

Dante deu ao homem a possibilidade de escolhas, antes era decisão divina, com seus escritos da Comédia (entenda que comédia era o nome do seu livro, foi acrescida “divina”, não por Dante, mas por Boccaccio futuramente e que o nome Comédia não remete a humor, mas sim o oposto de tragédia, onde se tem um início ruim e um final feliz), pois passou a ser uma representação ao antropocentrismo e humanismo, tirando o direito de escolha ligado ao divino, como é de praxe da Igreja. O fato é que Dante revolucionou o seu tempo e almejou criar uma síntese enciclopédica de tudo que havia sido conhecido filosoficamente e cientificamente no renascimento.

VALDIR VIANNA

“Pensar com alegria é envelhecer com sabedoria.”

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