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POR QUE NÃO SOMOS LIVRES? SARTRE E SPINOZA EXPLICAM

11 de setembro de 2019


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POR QUE NÃO SOMOS LIVRES? SARTRE E SPINOZA EXPLICAM

Valdir Vianna

 

Bem, essa é uma questão que é alvo de estudos filosóficos durante toda a história do homem enquanto ser racional e dedicado ao estudo ontológico no aqui e agora. É praticamente impossível falar sobre liberdade sem citar ao menos o filósofo francês, Jean Paul Sartre e Baruch Spinoza. O que eles tem em comum? Bom, um foi um adepto da corrente filosófica conhecida como “existencialismo”, que fora criado por outro filósofo anterior a Sartre e Martin Heidegger, o dinamarquês, chamado Soren Kierkegaard, já o outro foi contra tudo que existia de mais terrível no meio religioso de sua época, para provar que não é porque se acredita muito em algo, que aquilo é de fato uma verdade absoluta e inquestionável.

Vem junto nessa reflexão! Vamos compreender a ideia por trás de liberdade do ponto de vista de duas das maiores mentes da história da Filosofia, que nos mostram caminhos distintos um do outro, mas de extrema valia e vontade de viver com mais coragem essa vida danada.

Kierkegaard deu o pontapé inicial nessa ideia de “existencialismo”, isto é, a valorização do indivíduo a priori de tudo que ele admira e enaltece, Sartre foi quem deu as principais ideias sobre nossa não liberdade no mundo e causou um furacão de pensamentos logo após a Primeira Guerra Mundial. Pois bem, na importantíssima corrente existencialista, o homem não foi planejado por ninguém e nem existe de forma pré-determinada no mundo, obviamente contrariando as ideias de Spinoza – as quais veremos mais adiante – isto é, para os existencialistas humanistas, – e não o lado cristão de Kierkegaard – existe uma máxima, a qual foi cravada nos célebres livros de sua autoria, entre eles, O Existencialismo é um Humanismo, dizia ele: “A existência precede a essência”. Mas afinal, o que significa isso?

“Primeiro o homem existe e depois se define”. Eis aqui outra máxima existencialista, a qual complementa a primeira citada e assim se vai sucessivamente, como uma ideia de pensamentos interligas às outras, e tudo para explicar nossa forma de existir e de viver. Sartre nos diz que não somos livres, ou ainda em suas próprias palavras, “somos condenados a sermos livres”, pois ser livre não é apenas ir para lá e para cá, mas sim, dizer o que se pensa de forma que o homem seja responsável por tudo que faz, sem culpas a ligações transcendentes e não admitindo seus atos ruins ou bons ligados a essa questão da mesma forma. Trocando em miúdos, de forma superficial, para um entendimento simples e geral, os existencialistas – não cristãos, obviamente- colocam o homem no centro da sua existência e na frente dos seus atos, somos os responsáveis por tudo que fazemos, pela forma que somos jogados ao mundo e se quisermos ser livres, somos impedidos pela placa de “não pise!” na grama do vizinho.

Até aqui lhe apresentei o que qualquer estudante iniciante de filosofia poderia com clareza lhe falar da mesma forma que escrevi, mas o caso é entendermos o sentido disso tudo. Agora entra o pensamento de Spinoza, filósofo judeu, que estudou o talmude dos pés à cabeça, recusou a ideia de “Deus” criado pela igreja católica e criou uma ideia de determinismo, onde não existe destino, tudo está na natureza porque é dela que nossa existência é válida, por isso não existe liberdade em sua concepção. Vale lhe explicar que “natureza” na filosofia não significa uma mata, cheia de árvores e passarinhos cantando, mas sim, uma concepção de tudo que existe e que admitimos conhecer ou não, é o uno, é tudo, é o cosmos, é imanência pura de Deus.

Spinoza criticou duramente a religião da forma que era agregada ao estado, lutou também pela separação entre filosofia – teologia e da política com religião, é compreensível em seu tempo, pois as trevas habitavam por lá e infelizmente existem grandes fragmentos ainda no momento que nos encontramos.

Até aqui tudo bem?

Sartre dizia que não somos livres, era Ateu ferrenho, criou sua corrente filosófica baseada na visão humanista no pensamento de um cristão (Kierkegaard) e nos mostrou que aquela falácia “sou assim porque Deus quis que eu fosse” ou ainda, “fiz porque Deus acha que deveria ter sido feito” se esvai por água abaixo, pois a ideia é de que nunca somos livres enquanto ficarmos presos a concepções e amarras. Se fiz algo é porque eliminei outras possibilidades e encontrei uma forma de dar sentido a minha existência, sem que alguém supostamente tenha me orientado. Somos jogados no mundo e só quando me rebelo é que realmente sou livre. Inspirador não?

Spinoza nos mostra que podemos acreditar em uma força maior sem necessariamente nos curvarmos a divindades, irmos a reuniões, aceitarmos credos, e tudo isso fazendo o que ele fez, questionando duramente tudo que ele achava pela frente, principalmente ideias religiosas que a igreja queria lhe enfiar goela abaixo, inclusive até expulsaram-no da comunidade judaica, alegando que era um herege, ora bolas, a história mostrou que ele esteve certo o tempo todo. É bastante normal e compreensível as pessoas ficarem chateadas quando vamos contra seus credos e doutrinas religiosas, isso faz parte do meio filosófico, algumas entendem, outras odeiam quem lhes derrube algumas muletas, mas o fato é que tanto no existencialismo de um ateu, quando no “Deus de Spinoza”, eu aprendi a entender a ideia de liberdade do ser, principalmente quando nos encontramos nos campo da religião, onde a mesma nos prende, mas ao mesmo tempo nos conforta e nos dá um sentido para nossa existência.

Respeito todas as religiões, algumas delas são interessantíssimas, como o Budismo, Hinduísmo, Xintoísmo  e Espiritismo, que desprezam qualquer apego ao materialismo e nos dão uma base para uma vida mais serena, mesmo que eu não concorde com várias coisas de cada uma delas, pois sou cético demais, e também pudera, depois que se lê Nietzsche e Camus é quase impossível olhar o mundo e as relações humanas com os mesmos olhos. Mas agradeço a ambos, me formaram um ser teimoso, analítico e mais indesejado numa roda de conversa com gente que não gosta de filosofia. Afinal, só é teimosia se eu estiver errado, caso contrário estou seguindo meus princípios, e um deles é duvidar de tudo e de todos, até o ponto que sou visto como “o cara chato”.

Ah, não, lá vem ele falar da minha religião e liberdade.

Obrigado pela leitura e paciência.

“Pensar com alegria é envelhecer com sabedoria”.

Valdir Vianna

Professor de Filosofia e Escritor.

 

 

 

 

*Os textos publicados pelos colunistas da Rádio Querência são de inteira responsabilidade dos respectivos autores.

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