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SE TEMOS UMA BIBLIOTECA E UM JARDIM TEMOS TUDO!

8 de julho de 2019


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SE TEMOS UMA BIBLIOTECA E UM JARDIM TEMOS TUDO!

Valdir Vianna

A sábia colocação desta vez é do grande Cícero, ou melhor, dizendo seu nome completo, Marcus Tullius Cícero, sábio advogado, político, orador e filósofo romano, que caiu em berços filosóficos logo cedo, quando se admirou pela filosofia grega e posteriormente a introduziu em Roma. Gosto demais da ideia de absorver o conhecimento desses gigantes do pensamento universal, pois com eles vêm a pluralidade de reflexões que hoje já não se tem assim de maneira tão qualitativa. Essa frase, dita em latim por Cícero, “Ne sutor ultra crepidam”, traduz-se dessa forma como dei o título, parece que o latim deixa tudo mais intelectual, mais sofisticado, erudito, como os ministros do governo que volta e meia citam César, Cícero e outros filósofos latinos para dar mais ênfase nas suas falas, ou o jovem acadêmico que se amarra em citá-los nos seus escritos. Enfim, é belo mesmo, mas cuidado pra não usar essas expressões em momentos que não o merecem, afinal, como dizia Umberto Eco, “Nem todas as verdades são para todos os ouvidos”.

O fato é, nós, admiradores da literatura, seja você um leitor assíduo, um apaixonado, um curioso, ou um leitor que apenas começa os livros e nunca termina, temos algo que nos liga de certa forma, e isso se dá pelo elo com a história, todos que gostam de ler também gostam de contar o quê leem. Mas é fato também que ler por ler não adianta muito, isto é, não li a Divina Comédia porque é uma leitura indispensável para um estudo filosófico e da humanidade, eu a li pela necessidade de obter conhecimentos que até então eu não tinha obtido em experiência alguma, me admirei profundamente pela narrativa de Dante, assim como me emocionei bastante com as sábias colocações de Sêneca, em A brevidade da Vida, aprendi a caminhar, cair e a voar com o Zaratustra de Nietzsche, entre inúmeras outras leituras que fiz até aqui e sempre realizo e realizarei.

Quero dizer que o privilégio de ter muitos livros em casa não é algo que muitos brasileiros possam desfrutar, devido aos preços e principalmente: o despertar. Ah, meu caro leitor, saibas que de nada adianta ter mil livros na biblioteca se o jardim não te agrada. Tudo é uma questão de harmonia, isso é o que Cícero nos quis dizer com sua frase, precisamos apenas de uma biblioteca e de um jardim para termos tudo que precisamos para uma vida refletida e grandiosa. Claro que para Cícero ter vários livros era algo fácil, afinal, assim como ele, posso lhe garantir que sua vida será muito menos solitária e mais cheia de conhecimento – desde que sejam bons livros.

No jardim se reflete e na biblioteca se pesquisa. Assim podemos definir a ideia de aproveitarmos mais a literatura. Tem gente que não suporta ler nem rótulo de papel higiênico, talvez porque não teve incentivo da família, não teve um despertar na escola – alguns professores não entendem isso – Tem gente que jamais leu um livro se quer na vida, e que quando contamos algumas histórias interessantes para eles, ficam espantados, querendo mais. É exatamente isso que a literatura filosófica causa: espanto.

Quando conto aos demais que não gosto de dirigir, ou que não tenho a mínima vontade de ter um veículo, todos ficam espantados, “– Ah, mas como isso? Não tem sentido.”. Claro, não tem sentido fazer algo diferente daquilo que todos fazem, não é mesmo. Pois bem, sempre retruco dizendo que prefiro minha modesta vida refletida, a sós comigo mesmo, com amizades intensas, um repouso literário de grande arsenal – digamos assim – que me acompanha nessa vida cigana, aonde quer eu vá.

Meu jardim é o sol que brilha da janela do meu quarto enquanto escrevo esse texto, meus pensamentos estão baseados sempre nos livros de alguns pensadores latinos, de suas célebres colocações e reflexões, tenho tudo que preciso na minha biblioteca, nem perto dos 30 mil livros que a mini Alexandria do Umberto Eco dispunha.

Leio e absorvo o máximo que posso, pesquiso tudo que leio, assisto vídeos de indicações de leituras, e o mais engraçado é que na minha família nunca teve alguém interessado na literatura, muito menos em Filosofia, escolhi esse caminho porque nunca acreditei nessa vida morna que a maioria das pessoas vivem. Prefiro a biblioteca e o jardim, estou nem aí para essa euforia capitalista e insana que todos vivem cegamente, essa incessante vontade de aparecer frente aos outros, glamour ou algo do tipo.

Por isso é tão raro achar conexões amorosas nessa mesma linha de pensamento, chega beirar um desejo platônico, piegas até certo ponto, mas é profundamente verdadeiro e essencial se achar uma alma que nos compreenda e absorva aquilo que somos. Necessitamos compartilharmos nossa biblioteca, as histórias que ali estão. Quantos casos, tragédias, alegrias, fúrias, reflexões, creio que a arte e a literatura sempre podem unir as pessoas, em suas mais sutis manifestações. Da mesma forma que nem todos gostam de dirigir, nem todos tem uma biblioteca em suas casas, mas também da mesma forma que se aprende a guiar um veículo, pode se aprender a gostar de ler um livro. E se você achava que eu não falaria sobre os E-books, se enganou, pois bem, só concluo com mais uma frase que Umberto Eco disse numa entrevista, “Eletrônicos duram 10 anos, livros duram 5 séculos.”. Obrigado pela leitura! Afinal, pensar com alegria é envelhecer com sabedoria.

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