Colunistas

A cozinheira e a porteira

19 de agosto de 2019


Curta e Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

 

 

A cozinheira e a porteira

Dinamárcia Maciel de Oliveira

 

Era mais uma tarde de atendimentos na Promotoria de Justiça e recebi a visita da Coordenadora do Serviço de Saúde Mental do Município, trazendo-me a história de um paciente, residente no Lar Terapêutico da cidade, para ver se era possível fazer algo a fim de que o rapaz reencontrasse sua família e, especialmente, sua própria identidade.

O paciente em questão surgiu na cidade como um andarilho, com perturbações mentais, maltrapilho e com pensamento desorganizado, sem saber ao menos quem era. Foi localizado e atendido pelo Serviço Municipal de Saúde e encaminhado para acolhimento.

O tempo foi passando e ele adquiriu melhora, estava equilibrado e colaborativo, higienizado e bem alimentado, e então começou a ser estimulado a buscar recordações que pudessem conduzir à descoberta de sua origem e até mesmo de seu nome.

A psicóloga que era incumbida de atender o paciente pediu que ele, caso soubesse escrever, fosse anotando, num caderninho, coisas que lhe viessem à mente, lembranças que pudessem ajudar, de algum modo, nessa inusitada investigação.

Pois foi com o caderninho e com o paciente que a equipe veio até mim naquela tarde. Eu observei as anotações e pedi para fazer uma foto do atendido. Disse a eles que pensaria em alguma coisa e depois daria retorno.

De fato, fiquei por algum tempo pensando em como ajudar aquele pobre homem, sem nome, sem família, quase sem memória alguma. E foi num repente que, tendo numa das anotações dele o nome de outra cidade do interior do Estado, ocorreu-me sintetizar algumas das informações do caderninho e pedir ajuda para a colega da Promotoria de Justiça de lá.

Encaminhei um texto, a foto do rapaz e um pedido, para que a colega solicitasse à emissora de rádio com maior audiência no Município, especialmente na área rural, a divulgação da história, na esperança que algum ouvinte pudesse ter um parente assim desaparecido e viesse até a Promotoria de Justiça, na cidade, tentar reconhecer o sujeito na foto que fiz dele.

E qual foi minha alegria ao saber, num telefonema da colega, que no mesmo dia da divulgação na rádio, surgiu um suposto irmão, procurando por ele. Inacreditável. Quase um milagre. Mas, como dizem, “milagres acontecem”.

Dois dias depois o tal irmão estava na minha frente, ansioso, aguardando a chegada do nosso paciente, trazido pela equipe do Município. Quando nosso andarilho chegou e visualizou o homem que estava na minha sala, foi imediato o reconhecimento e a emoção entre ambos. Não se viam já fazia dois anos e meio e a família acreditava-o morto a essa altura. Na verdade, foi difícil mesmo para nós, como profissionais, segurarmos as lágrimas naquele momento.

Enfim, nosso paciente tinha nome, sobrenome, uma família e uma origem. E pensar que o que chamou a atenção do irmão, no aviso da rádio, foi a narrativa em que o paciente lembrava-se da cozinheira Rosa e da porteira grande e velha da estância, coisas que eram marcantes no local onde tinham passado juntos a infância.

Como terminou esse atendimento? Ah, isso já é outra história, mais impressionante ainda, que prometo contar no próximo artigo, sem falta.

Vida que segue. Até lá!

Os comentários estão desativados.

error: Conteúdo protegido !!!