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“É preciso ouvir os gritos do silêncio”

15 de outubro de 2019


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“É preciso ouvir os gritos do silêncio”

Por Dinamárcia Maciel de Oliveira

Naquela manhã com uma vasta pauta de audiências judiciais a acompanhar, cheguei ao Fórum instantes antes da primeira sessão ter início e percebi um rosto familiar no átrio: era o de um apenado que eu havia atendido anos atrás, num presídio da região. Ele estava agora no regime semiaberto, trabalhando durante o dia e se recolhendo ao cárcere à noite e aos finais de semana.

Manuseando os processos das audiências do dia, então constatei que a primeira delas seria com ele, acusado de ter ameaçado a esposa. Era uma situação abrangida pela Lei Maria da Penha, já em vigor à época.

Ocorre que, quando chamada a vítima, ninguém apareceu, e o réu disse, convicto, que ela não viria porque estava “tudo bem” entre eles. O Juiz então questionou se eu insistiria na realização da ouvida da ofendida, para que fosse marcada outra data. O réu, enquanto isso, esvaziava o olhar fitando o chão, com um leve sorriso no canto dos lábios. Desconfiei.

Foi aí que eu resolvi averiguar melhor e na hora o quê de fato estava ocorrendo. Pedi ao Juiz que suspendesse a audiência por meia hora, fazendo o réu aguardar na sala enquanto outras audiências da pauta eram realizadas. Expliquei que uma servidora do Ministério Público iria ao endereço da vitima, naquele intervalo de tempo, para confirmar a versão do acusado e, caso tudo estivesse bem mesmo entre eles, nem seria necessária outra audiência. O Juiz deferiu meu pedido.

Em pouco tempo a funcionária incumbida da missão me chamou até a porta da sala, mostrando-me a vítima, trazida por ela até ali, com o rosto desfigurado pelos socos desferidos pelo marido na noite anterior, para que ela não fosse ao Fórum. Barbaridade.

Chamei o Magistrado até o corredor, para ver também. Ele fitava com perplexidade aquela mulher pequena e quase esquelética, de trajes humildes e gestos submissos, até que eu rompi o momento de silêncio com pedido de prisão preventiva para o agressor, o qual aguardava, alheio ao que se passava, na sala ao lado.

A história termina com a prisão do réu minutos depois. Ficou recolhido novamente ao presídio e agora responderia por um crime bem mais grave: o de coação no curso do processo. De fato, precisamos abrir bem os ouvidos para escutar os gritos que vem do silêncio. Até a próxima!

 

*Os textos publicados pelos colunistas da Rádio Querência são de inteira responsabilidade dos respectivos autores.

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